Vertigem

sexta-feira, setembro 05, 2008

Não se movas companheiro.
Entre na fila do ópio.
Todo dia é assim mesmo.
Não te esforces tanto. A fila empurra seu lombo.
Num movimento sincrônico como passos de dança.
Mas peço-lhe um favor.
Levante a sua cabeça e escreva.
Antes que o pote de barro e cachimbo tirem. A minha pouca consciência de mim.
Talvez pereça na fila.
E minha sanidade seja arrastada para estas profundezas.
Antes disso, receba meus anos e anos.
Observação corriqueira. Sem valor de doutor. Sem eira nem beira.
Na fila. De canto de olho.
Não vejo seu início. Não há final visível.
Barulhenta fila maldita.
Uns se arrastam sedentos. Outros imploram perdão.
(Uns passeiam no parque. Outros assistem Televisão).
Maldito barulho de fila.
Se é certo o que dizem. Cada um terá sua vez.
Não existe razão para alvoroço.
Estamos no fim da história. Disseram lá no começo.
A conversa passa aos cochichos.
Poucos gritam irritados. Poucos passam bilhetes.
Mas o restante da fila se assusta com gritos.
Mas o restante da fila não entende as letrinhas.
A fila somente cochicha.
A fila de maldito barulho.
(Onde nada se ouve).
Na espera do ópio do dia.
O certo de cada um.
A cuba de barro passa devagar.
Como se quisesse eternizar um momento precário.
Um trago hoje somente.
O cachimbo é para todos.
Um cachimbo para todos.
A cuba não é mais visível.
Mas o cheiro do ópio é forte.
No fim do pote de barro. Sobra algo importante.
Muita morfina.
Para a dor na fila.
(Parar a dor na fila).
O certo de cada dia.
A fila anda.
A dor anda.
Muita morfina.