Memorial da Incerteza

quarta-feira, outubro 28, 2009

A vida é a personagem que interpreta as [profundas] crendices.
Dramatizada numa [entediada] performance cíclica.
E, [somente] desta forma teatral.
Os medos adquirem um corpo [opaco].
Assemelhando-se [ao final] a uma sensação de destino inevitável.
Mesmo na tentativa de ordenar retalhos de lembranças.
Tenho a crença. [Muito viva].
Que convivo frente a um [eterno] presente do passado.
[Face a face]. Então.
Murmuro [alto] para escutar. O que a voz rouca teima não calar.
Meu memorial é [apenas] um desapego.
E por ele caminho [ileso] ao avesso das virtudes do ideal.
A incerteza é a [indesejada] essência dos contextos.
Uma das condições que acaba por distinguir nos lamentos do [real].

A Elegante Morada da Solidão

domingo, outubro 25, 2009

III

"Falta trabalho", gritam os jornais todos os dias pela manhã. Logo a saída da minha rua, ouço o despertar de mais um dia fatídico. Alguns, de um jeito leve e autoconfiante, sussurram que as coisas poderiam estar piores. Outros, mais ouriçados, citam versículos do Apocalipse com tom profético e antiqüíssimo.

Porém, os jornais não duram muito tempo. As notícias logo ficam velhas. É preciso que sejam vendidos logo. E isso inclui tanto os dias melhores que virão como os dias de apocalipse com a extinção da humanidade. Na boca de pequenos ou experientes vendedores, com papel tratado e tinta rabiscada, as pessoas costumam ficar confusas e desestimuladas. Assim, preferem que as notícias falem em seu nome. Menos em relação a vida ruim. Esta sim é um fato. E continua na boca do povo.

Meu trabalho é próximo da minha nova casa. Esta certamente deveria ser uma vantagem, porém nada mais representa que um dado. Pouco de nós, humanos, escravos do relógio alheio, poderíamos nos dar ao luxo de sair àquela hora de sua residência. Há muito tempo cheguei a conclusão, imatura talvez, que toda a divisão entre os homens não se trata de maldade ou bondade e sim de quem controla os relógios e quem não controla. Quem não possui tempo para dirigir sua vida não precisa se preocupar em ter pecados ou não. Minha amiga L. diz que sou uma pessoa simplista.

Eu concordo.

A despeito da abstinência de trabalho, esta droga de eterna dependência, meus parcos estudos permitem-me certo luxo diante das ovelhas desgarradas, vagando para que um ou outro vigarista sugue toda sua vitalidade. Desprezo alguns tipos de serviços. Não os aceito quando me oferecem, mesmo que por uma boa proposta. Aliás, incomoda-me a existência deles e das pessoas que o fazem. São extremamente desnecessários e acabam me irritando profundamente.

Acabei por me perder novamente em devaneios. Peço que me chame atenção quando fugir muito do assunto. A minha mudança foi por causa do meu trabalho. Precisavam de alguém mais perto do local para as necessidades urgentes. Logicamente, não as minhas. Mas as de quem me paga. O fato de me pagarem influencia neste aspecto. Faço um pouco de vista grossa e preguiçosamente não comento quando dizem que "nossas" necessidades me fizeram mudar de endereço. Na verdade, pouco importa. Gosto de vê-los calados o quanto antes. Cada segundo de silêncio é um prêmio inestimável.

Chego ao trabalho entre sete e três minutos antes do expediente. Nunca mais. Nunca menos. Meu chefe, K., senhor rosado e arredondado, chama-me de sujeito realista. Seus fiéis bobos da corte repetem em coro – Realista! Realista! Realista! – a fim de cultivar e massagear o ego daquele que pode, em uma assinatura, mudar suas vidas. Meu desprezo só não é maior que a do nosso próprio chefe. Simplesmente respira em tom alto e desenha em sua face uma reprovação mordaz.

Não costumo incomodar o processo das coisas. Esse é o meu diferencial. Minha única pergunta há anos, quando meus senhores ordenam uma tarefa, é sobre o que é possível e o que não é possível. Sempre feita por mim. E sempre respondida por mim. Em sendo a coisa possível, as perguntas posteriores à resposta são descartáveis. Cria a sensação de tempo perdido se questionar demais. Melhor executar.

Em não sendo possível cumprir a tarefa, a pergunta muda, mas novamente se restringe a se é possível torná-lo possível. Se for possível, as perguntas se tornam inúteis como disse antes e torno concreta a possibilidade de se executar a tarefa. Se não for possível, as perguntam também se vão, mas por um motivo diferente. O que não pode ser possível, não é possível de se tornar real. Aquilo que não é possível de verdade somente existe porque eu dei vida em minha mente. Tenho que dar um fim nelas, pois só existem porque eu permito que elas aqui continuem. Elas precisam desaparecer. Pois não é possível executar.

Com esse sistema simples, vivo de forma satisfatória numa existência amputada de trabalho. A escravidão é menos danosa àquele que não se permite ser um escravo consciente. Para mim e para os outros. Não sei quando comecei a seguir regras tão exatas, mas aconteceu.

O fato é que o trabalho é o último lugar onde estou. Muitas pessoas remexendo papéis, diante de computadores, conversando nos corredores, bebendo água ou ouvindo ordens. Ordens para serem cumpridas, que provocam sede, escritos em protocolos de outras pessoas, documentos digitados a ermo e milhares de impressões de papel. Eu vegeto conscientemente até meu momento. O relógio não me obedece. Mas é certo que ele sempre caminha.

E uma hora, suas ordens sobre mim cessam.

O Colecionador de Sonhos

quinta-feira, outubro 22, 2009

- Segundo Império -
Dia 9 do primeiro tempo após a consumação dos seres humanos.


Carta a primeira que povoa a terra estéril (aquela que deslumbra a decomposição do insensato),

Seu corpo está desconfortável nesta posição. Assim está melhor? A terra batida pode ser traiçoeira em alguns pontos. Não agradeça com este sorriso, apenas fiz uma obrigação, não há porque continuarmos nesta ficção do mais do mesmo. Não muda de assunto, humana ingênua, pensa realmente que irei me deixar levar com isso? Você acha realmente que estou ficando velho? Não acredito.

Sorriso.

Não me lembro do último momento em que nos divertimos dessa forma. De qualquer jeito estar aqui é um risco a minha existência, assim como é pra você mesma. De fato, estamos aqui parados a olhar um para os detalhes do outro a algum tempo. O que eu vejo neste lugar?

Encontrei em você três outras que me surpreendem...

A primeira é sol, não combina com a melancolia desta terra, inverte os polos dos atos, investe em alegria sua essência. Eu a chamaria de Sakura. Esta é minha menina, não é doce mas torna os fatos assim, ao seu redor não existe penumbra, por isso tantos apresentam-se a sua luz, como cães a seus donos.

A segunda é espaço, a determinação em princí­pio, nada a detêm assim como ninguém pode tocá-la. Força em movimento e caos em sua lógica. A jovem Hitsuko é a construção do novo, a herança do ímpeto humano de modificar e criar, conquistar e ressurgir. Ela mantém seu corpo vivo, pois se as outras duas se encarregassem disso, não teriam disposição para cuidar de suas necessidades básicas e nem de expandir seu terreno conquistado.

A última é sua revolução, a destruição de tudo que se coloca enquanto existente, inclusive você mesma. Isso não significa rebeldia sem causa, mas a própria essência do existir ou não. Sua tempestade, por mais que possa parecer paradoxal, espalha cinzas e a própria Fenix não pode ser o que ela é diante do olhar de Yumi. O que perpassa a esterilidade deste mundo se conecta com cada ato e pensamento, passo e resistência de uma mulher que não só destrói, mas passa a fazer com que as coisas tenham nunca existido, por mais que elas tentem fazê-lo. Yumi é... emoção e indiferença, em proporções inconseqüentes.

Como? Não sei quem está diante de mim e nem qual seria o motivo de qualquer uma das três vir a transparência dos sonhos . E por mais que questione, para mim em especial, este dado não tem importância. Qualquer uma das três completam meu cárcere, embora todas elas constituam uma só prisão. Não sei o que te levou a me visitar neste dia estranho de tempestade, sol, nuvens e lua. Mas quero te abraçar e sentir cada vez mais os seus espinhos. Qual é a graça? Não sou maluco, mas com certeza sou irritante, o que não significa que você também não seja.

Olhares.

Se você é idiota? Concordo, mas no final das contas eu também sou. Seres humanos não cabem em fotografias, e isto o seu povo esqueceu. Pensaram que televisões, carros, cinemas, poderiam ser vida e isto tudo junto não pode gerar nada mais do que rotina e marionetes, por isso já estavam mortos antes daquele momento que criou isso em que estamos. Essa é a causa de você estar aqui e a humanidade ter perecido, você é a idiota que vive e sofre, cai na lama e quebra perna. Mas também sonha e me envolve, e esta é causa de minha prisão, finalmente compreendi, um colecionador de sonhos só existe para aquele que vive mais do que tudo.

Apesar deste ser o seu mundo e só você viver nele (e isso tornar-la em tese a pessoa mais egocêntrica da face desta terra), o fato de me perceber é simplesmente a sua contradição. Deita um pouco no meu colo, não quero que seu corpo sofra quando acabarmos este sonho. Se você não me permitisse ser real, não haveria diferença entre você, seu corpo e seu mundo. Existiria apenas um maciço de matéria e insensatez. Se você fosse este amorfo de coisas, não tentaria me proteger ou se proteger daquilo que não existe, por que só existiria você.

Sinto, não é minha intenção te deixar confusa, isto não é o papel de um mero colecionador diante daquela que dorme tão calmamente ao meu lado.

Apenas não quero que deixe de sonhar e acabe com minhas correntes. Que insensatez não? Eu também não compreendo isso no meu consciente, mas compartilho essa incoerência com você, aliás, não há muita gente pra se fazer isso por aqui. Nós humanos precisamos necessariamente de um pouco de veneno. Afinal esta é a diferença entre o arremesso e vôo, apesar dos dois terem um ponto final.

Você já está indo, eu sei. Embora não exista dia neste mundo, nenhum corpo foge a domesticação de anos acordando "cedo". Espero que volte... quando tiver vontade... eu... estarei. O que é esse olhar? Por que me disse entre vocês humanos? Por que eu sinto e gosto... e se no limiar da inconstância existe, intimamente é eterno (e complexo, por certo), se está feito... é capaz do impossível...

...daquele que ainda guarda um caminho no labirinto e uma chave enferrujada.

Um sonho nunca será o real, apesar de sempre acompanhá-lo no seu simples caminhar.

Projeto Lapsos. Originalmente postado em 22 de outubro de 2005 no "Sobre as Teses da Superficialidade".Justificar

A Elegante Morada da Solidão

domingo, outubro 18, 2009

II

Mudei-me há pouco tempo para a rua L. N., 18.

Minha nova morada nada tem de anormal. Casa pacata e segura, com uma morna sensação de tranqüilidade. É muito parecida com um desenho de criança, com uma nuvem grande, uma bola amarela com um sorriso e olhos desproporcionais e por fim, mas não menos importante, uma árvore que flutua ao lado da casa encantada. Penso que as crianças não têm noção sobre o que realmente representa o chão. Por isso não conseguem desenha-lo. Aliás, seria muito interessante para elas que as coisas continuassem flutuando e oferecesse acesso ao grande azul das nuvens e do seu solitário rei durante o dia.

À noite, as crianças só dormem ou choram. É por isso que penso que provavelmente os adultos continuam sendo crianças. Alternando os momentos de sexo, por óbvio. Talvez o dormir seja algo muito natural, mas o choro é, com toda certeza, um privilégio daqueles que continuam a sentir.

O primeiro contato com o chão pode ser algo deveras dramático. Geralmente resulta de uma corrida ingênua ou uma desatenção boba. Porém, sempre faz brotar um vermelho sangue com tonalidade viva de dor. O limite para baixo está dado. O sonho de voar também logo desaparece por não acontecer em muitos anos. Logo, o jovem está preso ao chão e se arrasta durante sua efêmera vida restante nesta prisão. Algo tão dramático deve ser contado aos poucos, em doses regulares e calmantes. Assimilar esta falta de liberdade é algo incomum, mas incrivelmente inquestionado.

Não acho que podemos falar em culpa, afinal você e eu provavelmente passamos por explicações bobas em períodos frágeis de nossa vida, como a física dos corpos e a quantidade de movimento que pode ser convertida em energia. O fato é que a gravidade é uma lei chata e parcialmente incompreensível. Melhor. Uma restrição puramente humana e não propriamente física ou newtoniana. Descobri meu verdadeiro corpo prematuramente. Antes de toda a educação forçada numa cadeira estragada durante muitos anos de minha vida. Por isso, sou capaz de me libertar parcialmente destas limitações cinzentas de uma ciência incompreensível e potencialmente estéril.

Após novamente divagar, felizmente conseguimos trazer-me (e a você também) a frente da minha casa. Retirei a chave da fechadura e prossegui a caminhada. As casas de minha rua parecem estar dormindo ainda. Resolvi ir mais cedo ao trabalho, pois desconheço o caminho.

Muito precavido, embora pouco criativo.

Neste horário, tudo está tranqüilo e somente as casas me acompanham ao final da rua. O vento facilita o meu deslizar frente a elas, que apenas apreciam meu desfile relaxado e distraído até o fim da rua. Sem grandes detalhes ou qualquer curiosidade, não senti quando ultrapassei a fronteira para a cidade.

A Lírica de um Menino

sábado, outubro 17, 2009

"Escrevo essa carta com as mãos pesadas de sentimento.
E com este esforço descomunal, as palavras se realizam com bastante sofrimento.
No teatro da vida e no meu íntimo, procuro a máscara da frustração para esconder por vez este medo.
Ao menos, neste momento, concentro o foco para tentar localizar.
Em um provável ponto de fuga longínquo.
Exatamente o seu ponto.
E determinar a hora e local de sua morte.

Não há como fugir do tema que atormenta minha consciência.
Lembro de você em um momento de aparência frágil.
Apresentaram-me como algo valioso a ser lapidado.
De fato, eu não acreditei.
Deixei-o na prateleira para que se tornasse empoeirado e desnecessário.
Uma coisa a ser jogada fora na iminente arrumação da casa.
Porém, você me forçou a mudar.
Diante de tudo, manteve seus olhos de confiança e vontade de torcer o mundo até a sua última gota.
Aquele que, por infortúnio ou sorte, o destino colocou como matéria arredia para que pudesse modelar.
Não havia como não admitir. Tive que concluir à força. E pelo sorriso.
Após a conquista, você se tornou o meu general.
Mais do que isto. O meu portador de sonhos celestes. Uma obra de arte.
A lírica de um menino.

Depositei assim uma fé incompreensível em seu enredo.
Nutri em muitas ocasiões uma maníaca possessão por sua trama.
Permiti inconscientemente que se acumulasse no fundo de sua alma os trejeitos de minhas virtudes mais vis.
E com insistência lhe confiei os contornos que eu gostaria de dar ao mundo.

Porém.
Quem será esse arremedo de homem com o qual me deparei?
O que acontecera para que a cabeça pesada e os olhos opacos se tornassem uma regra do jogo?
De onde vem esta casca sem fruto ou semente? Nada cresce, nada produz.
Em que ralo foram sugados os sonhos e a irritante persistência em se envolver com as dificuldades seculares invisíveis a olho nu?
Quem, por Deus ou Diabo, costurou este mosaico prolixo e harmônico, que se contradiz em cada parte desafinada.
E ao final, não representa nada que possa sugerir ao mundo algo para sorrir ou motivos para guerrear por suas vidas nestes dias difíceis.

Você se tornou um fracasso.
Para você e para mim.
E eu hoje somente posso lhe oferecer este riso falso e recheado de dor.
Pois assim talvez sinta que grande tragédia você se tornou.
A minha lírica perdeu o menino e se tornou um amontoado de palavras sem qualquer personagem.
A história, no final das contas, não se conta ou se escreve por si.

Esta carta somente teria dois pedidos até que meu interior rebentou neste papel e inundou-me da verdade que queria ocultar.
Se me encontrar na rua. Não me toque.
Se ouvir falar de mim. Finja que nunca nos conhecemos.
Pois em verdade, isto que hoje você se tornou, nunca fez parte de meus sonhos.
O meu menino morreu ainda em vida".

A Elegante Morada da Solidão

terça-feira, outubro 13, 2009

I

Passara devagar o velho e sua bicicleta ao largo da rua.

E com sua pequena vareta se esticara para acender os postes no findar da tarde, provocando uma mistura, naqueles poucos que já ouviram falar de sua existência, de esperança seca e confiança exacerbada. Um par de difícil relação desde muito tempo.

Neste breve momento, a rua se tornara clara e o caminho visível. Levava, a quem o acompanha, ao horizonte azul-avermelhado.

Paisagem temperada com os meninos jogando bola próximo ao meio fio. Duas pedras em cada canto. A bicicleta, em seu ritmo costumaz, passava constantemente no meio daquela multidão de pequenos infames.

“O velho-da-luz chegou”, comentavam os meninos maudosamente. Ele não replicava, pois fora menino por bastante tempo para entender aquele riso solto e quase infinito. Por fim, a bicicleta se equilibrava e vencia a grande distância entre as duas metades do campo, passando em meio as pedras de paralelepípedo, marcando o melhor gol da tarde.

As tardes morriam dessa maneira naquela pequena cidade. Contudo, às altas horas da noite, todos invariavelmente desejam a silenciosa escuridão. A escuridão da rua, dos passeios e das esquinas.

E paradoxalmente, as luzes se apagam no momento em que a escuridão se torna mais profunda. Somente, para nós que ainda não nos conhecemos e não compartilhamos de qualquer confiança, resta levantar hipóteses sobre este comportamento tormentoso da humanidade. Talvez, para alguns, este fato signifique esconder de forma sorrateira os pecados cometidos prazerosamente. Outros desejam provavelmente levar aos sonhos os poucos desejos escondidos. Por fim, todos evitam uma exposição insensível, a qual eles se submetem sob a tenra luz do dia.

Desde criança as coisas assim acontecem. Desde criança a noite é apenas... O meu momento de realizar-me.

Equinócio

sábado, outubro 10, 2009

Cumprindo o prometido, uma terceira "mensagem da moderação" este ano.

"Não iremos moderar nada.
Nenhum de nós. E temos dito".

O vento virou e a revolta está na rua.
Talvez a chegada da primavera tenha nos trazido outros tons.
É apenas uma suposição.
Contudo, o fato é que algo mudou.
Informes pertinentes:

1. "Te ver e não te querer, é improvável. É impossível".

2. Iniciamos uma nova série de textos chamada "Memórias". Somos extremamente indisciplinados com os textos sequenciados. "Diário de um homem que pensa" é um bom exemplo. Terminaremos algum dia.

Entretanto, não haviamos percebido como hoje conseguimos contar coisas tormentosas de uma forma lúdica. Por isso, daremo-nos um voto de confiança. E também libertaremos nossos demônios. Não diremos a periodicidade, mas não teremos grandes intercalações. Essas coisas começaram a afluir naturalmente de um tempo.

Além disso, a desgraça alheia é sempre divertida.
Mesmo que seja a sua.

3. Finalmente compartilharemos "A Elegante Morada da Solidão" por aqui. A idéia era publicar como um livrinho (à maneira do Contos e Desencontros). Porém, refletimos que as contribuições ficarão mais vivas neste lugar. Periodicidade sugerida é de um capítulo por semana.

Ao término, mandaremos um exemplar (feito artesanalmente, rsrs) para quem se interessar ou quem porventura nós condenemos a receber de presente. Fardo pesado ser nosso amigo, não?

4. Esperamos ainda este ano postar um texto conjunto com algumas (valorosas) companhias que aqui comparecem ou compareceram. As pessoas serão devidamente intimidas e responderão na forma da (minha) lei pelo descumprimento do feito.

5. Não tinha me atentado que para fazer postagens por aqui era necessário se identificar. E ainda tinha que preencher aquelas letrinhas. Anônimos de todo o mundo, além de uni-vos, fiquem a vontade para comentar. E sem ditadura de letrinhas até segunda ordem.

6. Estamos ainda na "Era das ironias"? Ironicamente, ela terminou não sendo. Pois então acabou. Estamos sem era, até que decidamos por abrir outra. Logicamente, passamos a uma "Era de Liberdades". No plural mesmo.

E assim, Caros amigos.
Sem mais,
Subscrevemo-nos.
Às intemperies da vida.

Clube dos Corações Solitários

quinta-feira, outubro 08, 2009

Memórias.

Em minha adolescência fui membro de um seleto grupo.

O "Clube dos Corações Solitários".
Ao tempo, como não poderia deixar de ser em nossas mentes ociosas, dissemos se tratar de "um divertido complô contra a natureza do amor".
Mas hoje, após a maturidade retorcida ter batido a minha porta, acho melhor definí-lo como "desculpa infantil em torno de sua essência pueril".

Não se assuste se eu disser que atividades do clube acabavam sendo bastante versáteis.
Reclamar do tempo. Cessar o lamento. Celebrar o momento.
Mas, como sempre, em pouco tempo desembocava em falar da infeliz amada, que por ocasião do momento, era distante e errática.
Discursos convincentes que poderiam enganar qualquer um que não fosse o próprio autor.

O "Clube dos Corações Solitários" tinha como sustentáculo uma política de singular cumplicidade.
Lei do silêncio. Vigia noturna. Ações orquestradas.
Estrutura "sólida" como uma rocha desgastada por séculos de intempérie.
Não era raro alguém se apaixonar por alheia amada.
E o castelo estável se convertia em ruínas em imperceptível momento.
Quantas vezes não estava eu, neste papel despedaçado.
O qual hoje me parece engraçado e que, contudo, já fora de singular e profunda dor.
Mas a gente sempre voltava.
Sempre com um novo amor. Às vezes com uma nova amada.
E voltava.
Porque era mais divertido estar neste emaranhado de desejos chamado apenas de pessoas.

Porém, o tempo acaba por fluir uma nitidez incomum ao passado.
E no fim, estas palavras são dedicadas.
Aos companheiros de noites e noites de profundos debates e loucas viagens.
Rumo ao nada.
E a consciência do mais profundo erro que, por nós, foi inventado.
O nome do Clube, desde sempre, fora equivocado.
Várias alternativas seriam mais fiéis a nossa natureza momentânea e epifânica.
"Clube dos Corações Despedaçados". "Clube dos Corações Desalentados". "Clube dos Corações Desajustados", talvez.

Pois, caros companheiros de estrada.
Solidão é outra coisa.
E hoje, sobretudo.
Eu entendo.