Letargia

segunda-feira, agosto 24, 2009

Às vezes me recomponho em demasia.
Estão minhas peças há muito perdidas.
Esquecidas numa imprópria prosa inacabada.
Verdade seja dita.

Não tenho grandes expectativas.
Somente uma sensação incômoda.
Que quase me decompunha.
Se não estivesse atrasada.
Em alguns anos de maturidade.

Sinceridade.
Corrói-me o medo de encontrar-me completo.
E ao espelho me perceber concreto.
A ponto de pesar diante da minha própria negação.

Charme cultivado na descrença.
Elegância fútil de quem nada faz.
Por pouco saber que sua solidão.
É o refúgio para esconder-se.
E nada mais.

Imortal

terça-feira, agosto 18, 2009

"Por que haveria de viver para sempre?
O tempo é um fardo pesado.
A humanidade uma chaga crescente".

Retrocesso

domingo, agosto 16, 2009

Projeto "Lapsos". Texto de 07 de outubro de 2007, publicado no "Sobre as Teses da Superficialidade".

...nunca tudo esteve tão evidente.
A ponto de não se temer o inevitável.
A redução ocorre naturalmente.
Como se o restante não passasse de tempo e um sincero pedido de desculpas.
Pois estamos entre as safras.
No momento preciso do qual o nada acontece.
Pois o auge e as fraquezas estão quase expostos.
É certo o quase.
Quase por certo uma única atitude.
Frente a própria inquietude e frustração.

Aqui encontro o meu retrocesso.
Caminho de volta ao cotidiano.
O qual as pessoas morrem todos os dias.
E o medo visita a cada noite ao lado da cama.
Para propor meu silêncio a uma vida de fantasia.
Ando de mãos dadas ao meu retrocesso.
Pois tenho que sentir minha carne cortar.
Ouvir as lamúrias nos cemitérios.
Gritar com a fome que corrompe os espíritos agonizantes.

Na profundidade.
Encontro o meu eu-retrocesso.
Para que a morte me tome todos os dias.
E tenha que fazê-lo a cada dia de sua medíocre existência.
Pois lá.
Eu sempre estarei.

Sobre as coisas que nunca falei.

Projeto "Lapsos". Texto publicado originalmente em 23 de janeiro de 2006.

Não é preciso ser tão sincero com as pessoas.

Elas acabam não gostando disso. Não mesmo. Posso ser meio encucado com o que elas fazem. Mas falso não sou. Não sou mesmo. Posso até não falar a verdade de vez em quando, mas falso nunca. Jamais enganaria ninguém...

Minha mãe já havia ouvido aquelas mesmas palavras trezentas vezes, eu poderia jurar que lá no fundo ela estava repetindo meu discurso com lábios imaginários e adivinhando cada palavra com um sorriso de canto de boca. Herdamos a péssima mania de minha avó. Ela me disse. Nunca a vi. Morreu antes. Infortúnio, dizia ela. O mesmo que levou tantos outros cantos de boca com sorrisos sarcásticos. Minha mãe era sarcatisca, eu acho. Não sei o que significa isso, mas o incomodo que me traz é intenso. Com raiva e medo dela já saber do que não estou sendo sincero. Ela tem poderes mágicos. Bruxas também. Não queria completar isso em minha mente, deve ter outra razão pra minha mãe não ser uma bruxa. Ela é do interior, e bruxas são sempre das grandes capitais romenas ou estadunidenses.

Você rodeou, peru, mas, como sempre, não explicou nada.

Ela me pegou. Perfeita sicronia de pergunta e olhar. Típico comportamento materno. Esta sem dúvida é uma espécie perigosa e ardilosa. Mais até que as bruxas. O que ela esperava de uma criança de poucos anos de experiência consciente neste mundo complexo e caótico? Não saiu uma palavra. Nenhuma. Defesa e ataque estavam perdidos àquela altura do campeonato. Bastava naquele momento decidir entre perder com honra ou receber um castigo mais leve, delatando os companheiros de luta.

Ser sincero de vez em quando é bom. Ajuda as pessoas. Como eu, ela disse, sugerindo um suposto agrado por aquelas informações. Tensão. Ser ou não ser? Resisti bravamente, e o choro começou a sair. Acreditava que tinha uma chance até poucos momentos antes, mas este choro denunciador acabou com o restante das probabilidades de uma fuga cinematográfica. Fiz uma coisa errada. Me convenci que fiz apesar de estar na hora comigo mesmo ao ter feito. O meu choro é um grande argumento diante do meu juri. Minha mãe é uma pedra. Na verdade, a melhor definição é uma pedra de gelo, por que queima também. Ela não se importou nem com a primeira nem com a última lágrima. A santa inquisição materna (e que estava acima do pai, filho ou do espírito santo que nunca comparecia nestes moementos oportunos...) esperava meu corpo em sua grande fogueira e queria fazer um grande churrasco por ocasião do acontecido.

Somente se passaram 5 minutos.

Sei que lembrar disto depois de 15 anos de saído de casa não tem sentido algum. Somente olhar para o mesmo relógio velho e perceber que estou com uma saudade traiçoeira. Daquilo que não posso ter novamente. Eu acho. Não posso ser sincero se apanhei ou não. Seria fazer com que perdesse o interesse sobre o que falo. Minha mãe sim poderia dizer. Ela poderia tudo, até sorrir sarcasticamente. E eu, sentado a seu lado sorrio da mesma forma inconsequente. Talvez possa sentir seu medo e receio de estar sendo lida como um livro aberto. Até demais, descolando algumas páginas. Páginas soltas. Eu entreguei meus amigos. Foi legal, mas não fui sincero com minha mãe. E ela sabia e sorriu. Ela sorriu de uma maneira diferente, como se seus olhos fossem grandes faróis de luz castanha resplandecente. Não conhecia nenhuma dessas palavras antes. Agora sinto-me bem em poder definir isso pra alguém. Sendo sincero, acho que me conforta me explicar isso tudo e poder definir pra mim mesmo o que mamãe fez.

Provavelmente nunca me falaria aquilo com a boca, somente com os olhos. Ela me deu uma carta de confiança por não ser sincero todas as vezes. Todas as vezes que posso fazer com que os olhos das pessoas se tornem faróis.

Não é preciso ser tão sincero com as pessoas.


Por ocasião do momento, ... /... / 2017 , entrego-me a teus braços.

Mal do Século

Em tradução literal.
Sofro de um problema elementar.
Vivo somente da metade.
Pois minha repartição é particular.
Partículas indecifráveis sem encaixe.
Identidade de coletiva personalidade.
Por fim, particular de mim.
Retrato falado de sociedade imprestável.
Declara que seus rebentos nasçam.
E que cedo ou tarde construam muros e grades.
A mais legítima vocação poética para o cárcere.
Pois a minha metade escrava da humanidade.
É mais metade que minhas outras partes.
Desaprendi desde a infância.
Sozinho difere da solidão.
Um é simplesmente casual.
O último um mal congênito.

Admiração

quinta-feira, agosto 13, 2009

Mutuamente.
Criador e criatura se admiram.
Atuam na mesma peça.
E interpretam os mesmos papéis.
Rasgam-se reciprocamente.
Tingindo de púrpura o sangue vivo latente do corte habitual.
Somente assim conseguem se deitar a noite.
De pernas entrelaçadas.
Frases ao pé do ouvido.
Um novo dia de teatro da vida.
Estranho paradoxo.
Somente eu.
E meu eu-capital.
Aplaudimos.
O fim do humano.

"Phi"

quinta-feira, agosto 06, 2009

Por acaso persistir.
Escrever alguma noite.
Poesia empenada.
Suja e maltrapilha.
Ao largo das ricas rimas.
E embebida em tragos baratos.
Cigarro arredio ou cachaça vadia.
Uma malandra menina que cuida de si.
Sem modos.
E desvia nos seus versos sinuosos os olhares proféticos.
Dança.
E hipnotiza as presas.
Aliviado estarei com a idéia.
A beleza que comigo dorme no limiar do dia.
Não alimentará o mais vil dos vícios.
A perfeita proporção em algum momento previsível.
Que sem qualquer sutil elegância.
Sufoca meus últimos gritos de originalidade.