Impulso.

quinta-feira, novembro 26, 2009

Não existem descrições para o que sinto.
Nem sei se há algum sentido nas minhas descrições.
O que descrevo não sou eu e algum sentido.
É somente o descrever do meu sentir sem um eu implícito.

Amor à Deriva

Nasci embalado em imperfeita melodia.
E somente à beira da fantasia me encontrava.
Pois quanto mais eu amava.
Menos eu me entregava.
Destino breve em discreta solidão.

Ne Me Quitte Pas.

Noite séria em dia longo.
Somente em fim de Primavera.
Não se espera um vento sul.
Sem se estar com a alma aberta.

A Elegante Morada da Solidão

quarta-feira, novembro 25, 2009

VI

Sinto-me envergonhado em ter me mostrado a você no momento mais íntimo de minha existência. Porém, na plenitude de minha força, pude demonstrar o que não mais me prende. Sua existência e de qualquer outro é diferente da minha. Ao menos, no momento em que a escuridão é querida.

Mas, pela manhã, mais um dia de trabalho. Bem vindo novamente a escravidão permissiva. Água no corpo, alimento na boca, pasta nos dentes, corpo na roupa e olhar no espelho. Meus limites estão postos e neste momento somente posso torcer para que a noite logo chegue.

Fecho a porta e com a chave ainda na mão, caminho. Passos silenciosos e olhar em direção ao nada. Meu visível jeito interiorano e desejo imenso de não chamar atenção somente aumentou o número de burburinhos dos vizinhos e pedestres. Minha pouca motivação ajudou a distinguir algumas palavras soltas, que possivelmente, se regadas e cuidadas, iniciariam um primeiro flerte com aquela gente ansiosa por informações e novidades em suas vidas mistificadas. Não repetirei tais palavras e idéias aqui, pois não interessam a mim, nem a você, as fofocas e formas criativas para o nascimento de um relacionamento entre vizinhos. Pergunto-me se uma frivolidade, como ter uma casa perto de outras, pode encorajar as pessoas a se expor como uma criança frente a um adulto com um doce.

Meu olhar percorreu inseguramente a rua, encontrando somente seus limites após algum tempo. Certo que não consegui distinguir concretamente as coisas vivas do resto da rua. Aquela gente, já desconfiava minha primeira impressão, no fim das contas, era como as casas que lhe davam guarida. Não poderiam se negar as diversas cores, texturas e acabamentos das diversas casas de minha nova rua. É lógico. Porém, não se via diferença em sua pequenez de espírito e arquitetura padronizada: Frente aberta e o fundo murado. Algumas grades visíveis, com grande espaço entre as barras. Portas fechadas e janelas abertas. Alguns necessitavam até de uma boa pintura visto o desgaste do tempo. Durante o momento mais tenro da noite eram todas iguais. Duvidava se realmente poderiam ser chamadas de casa ou entulho organizado.

Preciso admitir que aquela caminhada, de pouco menos que um quilômetro, transformou-se em um caminho sem fim onde terrivelmente conseguia apenas ansiar em encontrar o fim da rua. Cada olhar parecia me envelhecer décadas, procurando por defeitos físicos, falhas morais ou marcas de roupas. A sensação de nudez poderia ser desacompanhada deste profundo sentimento de incômodo que bem conheço.

Meus passos largos e incomodados agora eram meus únicos e últimos artifícios. Minha serenidade havia se perdido dentre aqueles olhares e visivelmente abatido, já sofria o primeiro desgaste da minha mudança. Sem qualquer palavra ou contato. Uma derrota desastrosa para quem apenas queria uma passagem anônima.

Por fim, o derradeiro olhar foi dado, como uma defesa instintiva. Uma casa imponente, embora menor que as outras, se interpôs ao meu horizonte. De costas a moça em frente às formas delicadas do edifício, olhou lentamente para a situação, modificando subitamente o espaço e tornando-o em poucos segundos pastoso e demorado, como se quadro a quadro fosse dada àquela cena. Em frente a sua casa observava minha passagem como se estranha fosse minha presença. Girou a cabeça lentamente novamente a posição original até permitir que o tempo natural se instalasse e as coisas voltassem a rapidamente se movimentar. Jogado no tempo presente, minha mente fotografou detalhadamente aquele olhar. Fim da rua.

Ensaio Sobre Identidade

quinta-feira, novembro 19, 2009

Nunca me situei no mundo terreno.

Nos dias de chuva e de raposas, as pessoas brincavam comigo assim, há muito tempo.
Não foi desencanto até onde eu penso. Na verdade, minha dificuldade sempre foi ter peso suficiente para não sair voando pelas esquinas, ser levado pelo vento norte (que afirmaram não mover moinhos...) e ficar de lá observando os passos, amores e bueiros das pessoas de cara desfigurada.

Desde pequeno percebi que precisava de âncoras e me agarrava a elas silenciosamente. Era difí­cil explicar as coisas, acompanhar os caminhos e não estar olhando para todos os lados.
Superativo. Superlativo. Superintrospectivo.

Nunca me situei no mundo terreno.

Nos dias de nuvens e fogo no céu, as pessoas brincavam comigo assim, há muito tempo.
A correria nas ruas largas, além dos postes longos e prédios tortuosos, nunca me impressionaram. Apenas colocavam a simplicidade óbvia das grandiosidades humanas. E por mais que se fechassem todos eles, numa grande rebelião, durante meu sono caustrofóbico (tão império como verdade), não puderam, em um só momento desejoso me tocar a ponto de insurgir no meu íntimo medo, receio ou dor.

Desde de criança percebi que precisava dos espinhos e me feria neles incestuosamente. Era difí­cil sentir as coisas, conversar na volta para casa e ter atenção ao que os outros falavam.
Incontrolável. Inconformável. Indispensável.

Nunca me situei no mundo terreno.

Nos dias de sombras e guerra, as pessoas brincavam comigo assim, há muito tempo.
E todos os dias, a neblina da manhã não me permitia distinguir se era outono ou verdadeiro. E a luz ofuscante da lua me ensinava o caminho das folhas secas, que não se importavam de serem pisadas. Os corpos não tinham rosto, apenas ocupavam lugar morto no espaço oco em que fui colocado.

Sorrisos e encantos gerados da minha carne passeavam nos corredores, mas não tinham endereço, substrato ou diferença, e logo voltavam ao grande poço. O sangue escorria no pátio, e batia nas portas das casas, reclamando o corpo do morto ou somente implorando ajuda para alguém que já não existia.

Desde de um tempo percebi que precisava escrever e me entregava aos poemas e contos, para que eles cuidassem de mim. Era difí­cil compreender as coisas, reescrever o caminho de ida e viver como as pessoas tentavam.
Indecência. Florescência. Paciência.

Nunca me situei no mundo terreno.

Nos dias de desejo entre luz e sombras as pessoas brincavam comigo assim, há muito tempo.
E por mais que eu tentasse, elas simplesmente existiam o suficiente para não negá-las algum dia, durante a lágrima, o olhar e a timidez...

Certas coisas são assim.

Projeto Lapsos. Originalmente postado no "Sobre as Teses da Superficialidade" em 26 de novembro de 2005.

A Elegante Morada da Solidão

sexta-feira, novembro 13, 2009

V

À noite, nada mais existe que um estado mais puro do meu “eu”. Em minha morada as coisas simplesmente acontecem. Ao chegar do trabalho, meu corpo cansado não quer repousar. A primeira manifestação é apagar qualquer tipo de marcas deixadas pela luz em meu extinto corpo. Assim, meus traços se misturam calmamente às sutilezas do espaço ao redor. As extremidades começam a se deformar e os movimentos não parecem mais estar conscientes. Estou diluído em meu reino. Sou meu próprio lugar, pois não existem mais limites entre mim e minha morada. Sou pura consciência.

Minha respiração está no mesmo ritmo do vento norte que abraça minha morada. É a primeira vez que me torno noite na nova rua. Todos os detalhes se convertem inexoravelmente em novidades. Minha caça está lá fora. Mas o ambiente ainda não está plenamente preparado. Os postes ainda teimam em estar acesos, evitando que o mal se espalhe completamente. Será preciso medidas duras contra esse descontrole desconfortável. Realmente gostaria que eles se apagassem apenas por perceber o papel repressor e nocivo que representam em sua sina luminosa. Porém, não podemos esperar consciência de todos. Quanto mais de postes. Minha principal violência é através de uma luz. Lógico, uma violência presente não pode ser ceifada por amor incondicional. Isto fere a razoabilidade. Por isso, projeto o minúsculo chaveiro na direção do núcleo da luz e envio uma forma de luz superior. Intensa, compacta e restrita. O interessante é que isto pode ser adquirido por qualquer criança por um preço banal. Após alguns segundos de indescritível ansiedade, realizo minha primeira vítima. O poste morre na esquina próxima. Aumento descomunalmente minha própria forma e poder. Posso estar à rua agora.

Contudo, o astro rei já está de volta e sua corôa de espinhos volta a ferir minha forma perfeita e ilimitada. Hora de me recolher, pois a madrugada clara já se projeta. O céu vermelho novamente marca a volta daquele que estava enterrado na linha do horizonte. Anunciando que mais um dia de normalidade está pronto para se realizar. Volto ao meu corpo de carne e osso. Reconheço minha fraqueza e retorno a morada do sonho. É hora de recobrar as forças nas poucas horas que me faltam. Esse descanso nada mais é que a simples necessidade de sobreviver para ressurgir em outras linhas novamente.

Da Camisa Azul Rebelde.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Memórias.

O desbravar das terras de Soterópolis.
O concreto da cidade selvagem. Animais intensamente domesticados pelas ruas. Irracionalidade travestida de metrópole. Há quase 10 anos atrás, nem minha juvenil percepção imaginava que, justo eu, poderia me entregar àquele lugar. Em tão pouco tempo. E por tanto tempo.

Chamavam-no de Cefet-Ba.

Antes de revelar os detalhes ocultos àquela arquitetura exótica e ultrapassada, possuo um pormenor a compartilhar. Quem conhece, sabe. Menino de interior nasce com uma timidez incomensurável. Transborda pelos cantos de boca, olhares e gestos. E isso nos deixa mais desconcertado a cada passo e palavra. Parece que nunca acaba tanta vergonha. Eu nasci assim. Eu cresci assim. Lógico, era um legítimo menino do interior. Daqueles bem "nativos". Isso me atribuía um charme estranho. Parecido com um segredo desconcertante de alguém que se conheceu a pouco tempo.

Vamos ao papo furado. Disseram-me que iria gostar muito do novo colégio. Família. Amigos. Desconhecidos. Emendaram que era um mundo com dez por cento da população da minha saudosa cidade, mas teria muito menos espaço para conviver com eles. Gente saindo pelos buracos. Duvidei que tal coisa existisse. Porém não fiz cavalo de batalha. A verdade era que estava muito machucado para continuar [em meu interior]. Na minha cidade. E dentro de mim. Não comentarei o fato hoje. Impressiona-me, contudo, que mesmo me gabando das minhas qualidades de observação, não havia percebido [até pouco tempo] que este fato foi um largo passo para minha indiscreta tendência à corte de laços. Uma dificuldade que carrego com desconforto em meu presente.

Estava naquele imenso infinito azul. Meu cartão de passagem era uma camisa azul em tamanho muito maior que minha frágil estrutura. Poucos acreditam que já pesei 62 quilos e fui quase raquítico. Frente às imensas muralhas não havia resistências visíveis. Uma sensação de liberdade incômoda vagava por ali. O azul das paredes me impuseram uma sensação de paz que descompassava com meus assombros. Quase como uma pena capital, liberdade não conquistada é um fardo. Nunca recebi elogios por simpatia, por isso, estava reticente naquele momento. Entretanto, meu sorriso falso sempre me acompanharia, estava certo disso. Oferecia proteção contra qualquer desconforto ou constrangimento naquele lugar.

Os contatos iniciais foram diversos e variados. Disseram-me haver uma piscina no colégio. Considerei uma informação desnecessária à primeira vista. Adotei este trote durante os dois anos seguintes, com outros pobres calouros. Percorria os corredores sem fim já sem perguntas. Estrutura suja sem qualquer dono ou alguém que pudesse reclamar sua integridade. Parei em frente a uma sala enorme. Um desperdício em concreto e piso, devo ressaltar. Guardo sempre a primeira impressão daquela turma. Sala estranha com gente esquisita. Não era difícil notar que éramos diferentes demais. E tínhamos algo de muito diferente também. De todo o restante. A gente tem essa impressão da própria vida e amigos. Entretanto, a minha impressão sempre me pareceu mais real.

O meu instinto na adolescência sempre foi a observação. Uma obsessiva mania de olhar continuamente o desenrolar das coisas. Muito pouco falava. Pouco acompanhava. Convivia. Muito escutava. Excessivamente olhava. Gradação contínua para reconhecer o terreno. Com essas características, seria melhor que fosse aprovado no exame da academia militar. Porém, isso sempre me permitiu compreender entrelinhas e dar bons chutes em situações complexas (menos ao que se referia à relacionamentos). O que procurava, em cada momento, como uma pessoa degenerada e aflita, era a [armadilha]. Aquilo que deixaria descoberto minhas tenras fragilidades. A exposição dos detalhes que revelam minha essência vazia. E ao perceber onde a tal armadilha estaria, tudo estaria acabado. O mundo azul estaria plenamente dominado e previsível. O encanto estaria sobre meu controle.

Aquele colégio sempre me pareceu estranho. Grande demais para que alguém pudesse tomar conta. Pequeno demais para caber tantos mundos. Sou muito reservado, entretanto, a minha embalagem sempre fora de uma pessoa aberta. Estava sempre fora de suspeitas. Eu me sentia protegido pela falta de exposição àquele mundo ou ao menos imaginava isto com bastante convicção.

Porém, nunca reconhecemos o real perigo. O tempo corre. E, com ele, as exigências sociais e psicológicas foram [lentamente] abrindo fissuras na minha armadura compacta e pouco elegante. Conheci alguns dos meus amigos de vida numa saída para ver "Matrix". Sinto-me atrasado em um século ao usar referências temporais. Comemos pão e água, pois não tínhamos o suficiente para o vinho da santa ceia. Hilariante como nos divertíamos com tão pouco. Havia uma menina muito inteligente na sala, a qual foi meu grande amor da adolescência. Pessoas difíceis sempre atraíram. Na verdade, a grande possibilidade das coisas darem errado era sempre o tempero apreciado por meu paladar inconveniente. Arranjei amigos e amores. Grandes e profundos respectivamente.

Por fim, devo considerar que aquele lugar tinha uma peculiar atração. Pareceu-me que padeci do maior vício do paraíso, permitindo que aquele azul permeasse minha pele, mente e sentidos. Deixei que as pessoas entrassem pela porta trancada e, no final, desejei que aqueles sentimentos me pertencessem. Meu mundo extravasou em milhares de outros alentos e sonhos. Fui rendido sem perceber e sem qualquer tiro ou morte. Sempre fui muito arrogante, aliás, demasiadamente. Admitir que a armadilha não estava no lugar onde procurava era um inconveniente muito grande para meu enorme ego naqueles dias. É preciso dizer que o meu lugar azul nunca foi um problema.

"Uma ferida ainda aberta é a mais convencional armadilha".

A Elegante Morada da Solidão

domingo, novembro 01, 2009

IV

À porta do trabalho, apresento somente as costas. Mas ao contrário do comum, não me sinto cansado. Compreenda. Pois, voltei ao meu corpo exatamente neste momento. Minhas mais sensíveis habilidades estão afinadas e ressoam pelo espaço. Porém, o meu destino já está traçado. O definhar do sol. E especialmente me satisfaço, por que isso acontece todos os dias. Sem falhas. Essa maldita luz, que me apresenta pelas manhãs a uma vida miserável vai, enfim, dar lugar a outra coisa maior.

Ando devagar, aproveitando cada morte de raio de sol. Seu sangue se esvai, espalhando vermelho por todo céu azulado. O sol tomba lentamente, tentando se agarrar desesperadamente a cada nuvem e, por fim, esconder sua derrocada aos olhos humanos. Olhos que considera subalternos. Sem qualquer sucesso escorre pela linha do horizonte. Não existem chances de retornar ao céu na forma de astro rei até o próximo dia.

Este é o momento em que outro ser toma conta de mim.

Não me entenda mal. Em decorrência deste bem estar incomum, li e visitei pacientes que convivem com sociopatias, transtornos bipolares e esquizofrenia, mas nada que me invade se encaixa em tais definições conceituais.

Minha porta é meu olhar. E meu olhar a boca da noite é de procura da caça.

Meu ritual é interrompido por um instante. Ouço o sino e a corrente enferrujada da velha bicicleta. Passa por mim despercebida, possibilitando uma luz substituta tomar o lugar do falecido rei. Retornamos a uma dinastia forçada do império da luz. Artificialmente prolongada por uma vontade pueril e cobrada de forma tirânica a todos nas taxas de iluminação pública. Porém, as altas horas já não tardam. E por meio do povo, a luz, mesmo a substituta, se enfraquece.

Ao fim do dia sou o homem mais disposto que já existiu.