Memórias.
O desbravar das terras de Soterópolis.
O concreto da cidade selvagem. Animais intensamente domesticados pelas ruas. Irracionalidade travestida de metrópole. Há quase 10 anos atrás, nem minha juvenil percepção imaginava que, justo eu, poderia me entregar àquele lugar. Em tão pouco tempo. E por tanto tempo.
Chamavam-no de Cefet-Ba.
Antes de revelar os detalhes ocultos àquela arquitetura exótica e ultrapassada, possuo um pormenor a compartilhar. Quem conhece, sabe. Menino de interior nasce com uma timidez incomensurável. Transborda pelos cantos de boca, olhares e gestos. E isso nos deixa mais desconcertado a cada passo e palavra. Parece que nunca acaba tanta vergonha. Eu nasci assim. Eu cresci assim. Lógico, era um legítimo menino do interior. Daqueles bem "nativos". Isso me atribuía um charme estranho. Parecido com um segredo desconcertante de alguém que se conheceu a pouco tempo.
Vamos ao papo furado. Disseram-me que iria gostar muito do novo colégio. Família. Amigos. Desconhecidos. Emendaram que era um mundo com dez por cento da população da minha saudosa cidade, mas teria muito menos espaço para conviver com eles. Gente saindo pelos buracos. Duvidei que tal coisa existisse. Porém não fiz cavalo de batalha. A verdade era que estava muito machucado para continuar [em meu interior]. Na minha cidade. E dentro de mim. Não comentarei o fato hoje. Impressiona-me, contudo, que mesmo me gabando das minhas qualidades de observação, não havia percebido [até pouco tempo] que este fato foi um largo passo para minha indiscreta tendência à corte de laços. Uma dificuldade que carrego com desconforto em meu presente.
Estava naquele imenso infinito azul. Meu cartão de passagem era uma camisa azul em tamanho muito maior que minha frágil estrutura. Poucos acreditam que já pesei 62 quilos e fui quase raquítico. Frente às imensas muralhas não havia resistências visíveis. Uma sensação de liberdade incômoda vagava por ali. O azul das paredes me impuseram uma sensação de paz que descompassava com meus assombros. Quase como uma pena capital, liberdade não conquistada é um fardo. Nunca recebi elogios por simpatia, por isso, estava reticente naquele momento. Entretanto, meu sorriso falso sempre me acompanharia, estava certo disso. Oferecia proteção contra qualquer desconforto ou constrangimento naquele lugar.
Os contatos iniciais foram diversos e variados. Disseram-me haver uma piscina no colégio. Considerei uma informação desnecessária à primeira vista. Adotei este trote durante os dois anos seguintes, com outros pobres calouros. Percorria os corredores sem fim já sem perguntas. Estrutura suja sem qualquer dono ou alguém que pudesse reclamar sua integridade. Parei em frente a uma sala enorme. Um desperdício em concreto e piso, devo ressaltar. Guardo sempre a primeira impressão daquela turma. Sala estranha com gente esquisita. Não era difícil notar que éramos diferentes demais. E tínhamos algo de muito diferente também. De todo o restante. A gente tem essa impressão da própria vida e amigos. Entretanto, a minha impressão sempre me pareceu mais real.
O meu instinto na adolescência sempre foi a observação. Uma obsessiva mania de olhar continuamente o desenrolar das coisas. Muito pouco falava. Pouco acompanhava. Convivia. Muito escutava. Excessivamente olhava. Gradação contínua para reconhecer o terreno. Com essas características, seria melhor que fosse aprovado no exame da academia militar. Porém, isso sempre me permitiu compreender entrelinhas e dar bons chutes em situações complexas (menos ao que se referia à relacionamentos). O que procurava, em cada momento, como uma pessoa degenerada e aflita, era a [armadilha]. Aquilo que deixaria descoberto minhas tenras fragilidades. A exposição dos detalhes que revelam minha essência vazia. E ao perceber onde a tal armadilha estaria, tudo estaria acabado. O mundo azul estaria plenamente dominado e previsível. O encanto estaria sobre meu controle.
Aquele colégio sempre me pareceu estranho. Grande demais para que alguém pudesse tomar conta. Pequeno demais para caber tantos mundos. Sou muito reservado, entretanto, a minha embalagem sempre fora de uma pessoa aberta. Estava sempre fora de suspeitas. Eu me sentia protegido pela falta de exposição àquele mundo ou ao menos imaginava isto com bastante convicção.
Porém, nunca reconhecemos o real perigo. O tempo corre. E, com ele, as exigências sociais e psicológicas foram [lentamente] abrindo fissuras na minha armadura compacta e pouco elegante. Conheci alguns dos meus amigos de vida numa saída para ver "Matrix". Sinto-me atrasado em um século ao usar referências temporais. Comemos pão e água, pois não tínhamos o suficiente para o vinho da santa ceia. Hilariante como nos divertíamos com tão pouco. Havia uma menina muito inteligente na sala, a qual foi meu grande amor da adolescência. Pessoas difíceis sempre atraíram. Na verdade, a grande possibilidade das coisas darem errado era sempre o tempero apreciado por meu paladar inconveniente. Arranjei amigos e amores. Grandes e profundos respectivamente.
Por fim, devo considerar que aquele lugar tinha uma peculiar atração. Pareceu-me que padeci do maior vício do paraíso, permitindo que aquele azul permeasse minha pele, mente e sentidos. Deixei que as pessoas entrassem pela porta trancada e, no final, desejei que aqueles sentimentos me pertencessem. Meu mundo extravasou em milhares de outros alentos e sonhos. Fui rendido sem perceber e sem qualquer tiro ou morte. Sempre fui muito arrogante, aliás, demasiadamente. Admitir que a armadilha não estava no lugar onde procurava era um inconveniente muito grande para meu enorme ego naqueles dias. É preciso dizer que o meu lugar azul nunca foi um problema.
"Uma ferida ainda aberta é a mais convencional armadilha".